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Desistir

Era mais uma segunda-feira e eu estava perdido pelas ruas da cidade. Caminhava próximo a linha do trem enquanto fumava um cigarro.  Seguia em busca do bar mais próximo. Nunca foi tão difícil ficar três noites acordado, a idade chega e não tem muito o que fazer. Caminhava pelo submundo da cidade. Aquela hora e naquele lugar só viviam todos aqueles que, de alguma forma, eram menosprezados pela sociedade. Eu estava lá por que estava perdido. Por que desistira de tudo e de todos. Naquela ruazinha, caminhando entre bêbados e adictos, haviam prostitutas. Mulheres, homens, mulheres e homens trans, travestis. Infelizmente, muitos ainda recorriam a isto para sobreviver.  "Quem vai empregar uma travesti numa loja não é mesmo? Mancharia o nome da loja, com certeza." Pff!.  Grandes bobagens que se ouve entre um passo e outro pelos corredores da sociedade. Havia alguém ali, que de alguma forma se importava comigo. Não sei o por que, nem como ela havia reparado em mim....

Quarta-Feira

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 Hoje era mais um daqueles dias em que eu não queria ter acordado. Em plena quarta feira, nada dando certo e eu ainda precisava arrumar um jeito de pagar o aluguel. Por incrível que pareça, eu estava acordando próximo as 18 horas. Estava vivendo como freelancer numa empresa enquanto trabalhava em casa, e assim, eu poderia escolher o melhor horário pra trabalhar. Sou mais produtivo a noite, então, normalmente trabalho a noite.  Mas as preocupações só tem aumentado, nada da certo, o freela não da uma grana que eu consiga me sustentar e, acabo de finalizar um pedaço da minha vida em que eu não sei muito bem como lidar.  Sempre que me sinto assim, ligo a TV, pego uma cerveja e um maço de cigarros e fico aqui, como se o tempo não importasse mais, como se nada mais fizesse um sentido.  Todo dia que eu fico assim, de verdade, toda vez, ele aparece e conversa comigo. Talvez muitos não saibam, mas eu tenho um grande amigo, ele é um cara boa pinta, bonito e inteli...

Sobre ir, as vezes.

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Ontem eu fui a mesma padaria de sempre.  As mesmas pessoas de sempre estavam lá, mas dessa vez não perguntaram de você. Disseram que eu havia sumido e que não me viam mais pelas ruas do bairro. Sorri. " Eu tô sempre por aqui, foi a senhora que não viu " Ela sabia que era uma mentirinha, mas aceitou a resposta. Voltei pra casa pensando em quanto tempo fazia que eu não saía na rua. Pensei no caminho pra casa, enquanto tragava meu cigarro. Entrei, fechei a porta, pus os pães na cozinha e me sentei no sofá da sala. "Quanto tempo faz que eu não saio daqui?" e depois de pensar um pouco, compreendi tudo o que acontecia. Por mais que algumas pessoas pensem que eu tenho buscado encontrar aqueles que se importem ou coisa do tipo, estes estão errados.  Também não resolvi não atrapalhar mais, pelo contrário, tenho atrapalhado muito mais agora. a verdade é que olhei pra dentro.  respirei e me afundei, novamente, em livros. tenho devorado livros mais do...

Ontem

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Ontem fui a padaria, como sempre vou de manhã. Aquela senhorinha que mora no 102 perguntou de você, se estava bem e disse que não a via já tinha algum tempo. Respondi que você estava bem, aliás, era sempre isso que eu dizia quando perguntavam de você desde a última vez que nos falamos, há uns seis ou sete anos mais ou menos. Ainda me lembro que você disse que estava bem pra sempre, ou seja, eu não deveria mais me preocupar.  Esse foi o motivo pelo qual eu fugi, e o motivo pelo qual eu sempre fujo. Conversamos um pouco, ela disse que eu era um bom rapaz, mas que deveria me cuidar mais, não desperdiçar minha vida assim. Juro que não entendi o que ela quis dizer, mas por que não prestei atenção mesmo. Ainda estava pensando em:  "Por que eu fugi?" Não tinha uma resposta. Talvez eu nunca tenha essa resposta. Talvez, e só talvez, eu tenha ido pra não machucar mais ninguém. Para não ferir mais ninguém com tudo aquilo que eu nunca vou ser. Peço aos deuses que estejam t...

Voltar

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Era cerca de 3 horas da manhã de uma terça-feira comum, quando me sentei na cozinha com uma garrafa. Enquanto eu olhava pra ela, e ela me olhava, várias coisas passavam pela minha cabeça. Desde as minhas partidas, partidas de outras pessoas, mudanças, medos. Tudo se passava por aqueles cinquenta centimetros de olhares. Me lembro apenas de pegar o cigarro quando ele se sentou a minha frente, sorrindo, como sempre. - Como você está hoje? Não era pra estar dormindo? - Ah, to indo. E sim, eu deveria estar dormindo. - E tá fazendo o que aqui? Aliás, me da um gole aí. A garganta tá bem seca. Fui até o armário, peguei os copos americanos, exatamente aquele copo americano que foi inventado aqui no Brasil, peguei dois, voltei calmamente. Vi que ele usava uma roupa parecida com a minha. Camisa regata, bermuda preta, o boné virado pra trás. Ele ainda me olhava sorrindo. Servi. - Então - ele disse - você deveria estar dormindo, logo logo vai ter que trabalhar, não é? - Pois é, os...

sobre um livro

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Ainda me lembro do dia em que ela saiu por aquela porta sem dizer uma palavra. Ou melhor, sem dizer uma palavra e sem nem olhar pra trás.  Aquilo me disse muito de uma só vez. Aquilo foi o adeus silencioso mais doloroso que eu havia recebido em toda a minha vida. Todos se vão e mesmo que eu ainda guarde um pouco de cada um que passou por mim nesses vinte anos de vida, eu não consigo superar aquele adeus. Naquela mesma manhã, ela havia chegado feliz, com um livro nos braços dizendo que era meu. Uma semana antes, ela me pedira um livro emprestado, logo após eu contar a história de como meus avós se casaram por causa de um livro. - Uma vez, minha avó, que já conhecia meu avô da escola, disse que gostaria muito de ler uma obra que se chama "Dom Quixote de la Mancha" é um livro de Miguel de Cervantes. - Todo mundo já ouviu falar de Dom Quixote - ela me enterrompeu. - Pois bem, meu avô, disse que usava sempre um marca textos dentro do livro, e que era pra que ela o mantives...

Amanhã.

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Aquela manhã, eu tinha certeza de que algo de bom iria acontecer na vida de muita gente.  Acordei, me arrastei da cama pro banheiro. Escovei os dentes. Lavei o rosto. Olhei pra mim mesmo no espelho e fiquei pensando em 163 formas de dizer que não me odiava e então disse: - eu te odeio. Saí pro trabalho. Caminhando pela rua, bastante movimentada as 6:20 da manhã. Passei em frente a padaria, comprei um pão na chapa, tomei um café. Comprei mais um maço de cigarros e saí em direção ao trabalho. Caminhei alguns quarteirões até chegar no escritório. Sentei na minha mesa e mais uma vez, como todas as outras 365 vezes no ano, respondi que estava tudo bem para todas as 18 pessoas que me perguntavam como eu estava após um bom dia. Coloquei os fones de ouvido, deixei o celular tocar as músicas aleatóriamente. Me lembrei de como gostava de tocar guitarra e como isso me divertia.  Planilhas e mais planilhas. Excel. Photoshop. InDesign. Mais um dia caminhava para o fim....